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54. Teatro Menor [2011]

textos de José Sanchis Sinisterra
tradução, dramaturgia e encenação António Augusto Barros
elenco Igor Lebreaud, Miguel Lança, Miguel Magalhães, Paula Garcia, Rafaela Bidarra e Sofia Lobo
espaço cénico António Augusto Barros e João Mendes Ribeiro
figurinos e imagem gráfica Ana Rosa Assunção
desenho de luz Jorge Ribeiro
sonoplastia Eduardo Gama
assistência de encenação Sofia Lobo

estreia Teatro da Cerca de São Bernardo, Coimbra, a 30 de Junho de 2011

“o meu conceito de teatro aspira a gerar o máximo de complexidade, ambiguidade, imprevisibilidade e indeterminação”

José Sanchis Sinisterra

O nosso envolvimento com o trabalho teatral de José Sanchis Sinisterra é antigo. Remonta à “pré-história” da companhia, ainda no espaço universitário da década de oitenta, quando nos fomos reunindo em experiências que se foram filtrando e acabaram por estabelecer os pressupostos teóricos e práticos fundadores do projecto A Escola da noite.

José Sanchis Sinisterra chegou a colaborar na revista “Teatruniversitário” que o TEUC editava na altura e a companhia que fundou em Barcelona, o Teatro Fronterizo, esteve na cidade, em 1988, no programa da Bienal Universitária de Coimbra. O tema do artigo era a teatralidade em Kafka e o Teatro Fronterizo trouxe-nos uma adaptação de “Primeiro Amor”, de Beckett.

Kafka e Beckett, dois territórios partilhados até hoje. Kafka e o gosto de sondar a teatralidade de certas escritas. Beckett e a marca do diálogo com certas dramaturgias e com a história do teatro, a forma de se situar no “caudal do teatro sem o deixar secar” (Brook).

Ao longo destes dezanove anos de trabalho profissional fomos seguindo à distância o evoluir da sua obra teórica, da sua premiada carreira de dramaturgo, do seu labor pedagógico e de encenação, em Espanha e por toda a América do Sul.

Chegou agora a oportunidade de montar alguns dos seus textos dramáticos. Primeira advertência: não se tratou de escolher uma das suas peças, mas de construir uma dramaturgia seleccionando alguns dos seus textos breves (ou brevíssimos) que reuniu sob o título Teatro Menor – título que nós decidimos também adoptar para este espectáculo.

São “textos em tom de humor, pequenas reflexões para desmontar o universo figurativo”, nas suas palavras, “o laboratório da metateatralidade na minha obra”.

Achámos pertinente colar a este laboratório o armazém da memória de uma companhia de teatro, figurinos de personagens oriundas de outras épocas, do “pó do teatro”, sapatos para todas as caminhadas, para todas as histórias.

Na raiz do movimento a ideia de viagem, cruzamentos breves e acidentais entre actuantes e entre estes e as pessoas que ocupam o lugar de ver – o teatro.

Esta “espécie de seres” que por aqui passam trazem palavras torrenciais, blocos maciços de palavras, ou apenas réplicas onomatopeicas. Trazem conceitos agarrados à pele – arte, vida, morte, personagem, autor, actor, público – e estão preparados para habitar qualquer deserto, integrantes de “uma humanidade em marcha sabe-se lá para onde”. Encontram-se, desencontram-se tangencialmente, perdem-se num espaço vazio mas povoado de fantasmas.

Buscam cumplicidades, propõem perguntas porque “o teatro é, afinal, uma ferramenta permanente para o homem se interrogar a si próprio, na relação com os outros e com a sociedade” e, com isso, “apelam a um espectador inteligente – não intelectual – que se permite indagar sobre a sua própria experiência naquilo que o texto propõe (…)”.

Uma segunda advertência: a vida, no seu fluir apressado e vibrante, decide-se em momentos, em encontros casuais. Cada momento morre ali, por um pequeno nada. O confronto com essas pequenas mortes em plena vida devia fazer-nos mais atentos. “O que têm de bom as flores é que murcham depressa”.

António Augusto Barros
in folheto de apoio ao espectáculo, Junho 2011