
textos de Paloma Pedrero
encenação Sofia Lobo
elenco Allex Miranda, Cleia Almeida, Igor Lebreaud, Miguel Magalhães, Neusa Dias e Paula Garcia
cenografia Atelier do Corvo e Carlos Antunes
figurinos Ana Rosa Assunção
desenho de luz Danilo Pinto
criação de som e imagem Eduardo Gama
estreia Teatro da Cerca de São Bernardo, Coimbra, a 13 de Novembro de 2010
encontros e descaminhos
No texto que escrevem para este programa, Paloma Pedrero fala da vida como “um desastre no qual as pessoas sofrem demasiado”. Atrás de um aparente fatalismo, existe contudo uma profunda crença na possibilidade de os indivíduos transformarem este estado de coisas. Muitas vezes com a ajuda do estranho que aparece e de quem acabamos por aceitar um inusitado mas redentor abraço, que nos recorda a importância da mera comunicação. “É mais fácil que um desconhecido possa ver-te como és, reparar como te sentes e beijar a tua ferida, do que alguém que está ligado a ti”, acredita Paloma.
Para que isso aconteça, será necessário que nos mantenhamos atentos. E disponíveis para ouvir e falar com o outro, para experienciar e desfrutar os afectos que a vida nos vai oferecendo. Paloma, diz ela, escreve para que nos encontremos com o ser humano “que não nos deixam ser”, para transformar o mundo, através “da compaixão, do humor e do amor”.
Por estas ou por outras vias, continua a ser este o papel da arte: o do confronto do homem consigo próprio. Eis o que nos leva a fazer teatro, há dezoito anos em companhia. À nossa maneira, somos “o estranho” que abraça o espectador.
Ao mesmo tempo, corpo vivo que somos, recebemos também do público o abraço de que precisamos. É a atenção dos espectadores ao que fazemos que nos cura as feridas e nos anima a prosseguir.
Por outro lado, grupo de mulheres e homens que somos, assumimos a nossa própria dimensão de desastre colectivo e as doses de sofrimento individual em demasia que não conseguimos evitar. O mundo todo, o bom e o mau, entra-nos pela casa dentro e com ele temos de nos amanhar, como podemos e sabemos.
São tempos difíceis, estes: de crise, de pré-catástrofe, de nervos à flor da pele, propícios ao cansaço e ao descaminho. Tempos que nos exigem um esforço adicional para não sucumbir ao pragmatismo, ao individualismo, à indiferença, ao “horror da realidade” de que nos fala Paloma num outro texto.
Tempos em que nem os artistas eles próprios parte do mundo que ajudam a transformar, conseguem sempre resistir ao pesado ar que sobre eles se abate ou manter-se à tona do lamaçal que alastra.
E no entanto não há alternativa. Para que o teatro (como a vida) continue sendo o lugar de encontro que deve ser, vale-nos o avisado conselho de Beckett: “Quanto de está metido na merda até ao pescoço, só nos resta cantar”.
A Escola da Noite
in folheto de apoio ao espectáculo, Novembro 2010



