
texto de José Rubem Fonseca
encenação António Augusto Barros
elenco Allex Miranda (CTB), António Jorge (EN), Carlos Feio (CTB), Igor Lebreaud (EN), Lina Nóbrega (EN), Maria João Robalo (EN), Mário Montenegro (EN), Miguel Magalhães (EN), Rogério Boane (CTB), Sílvia Brito (EN), Solange Sá (CTB)
figurinos Ana Rosa Assunção
desenho de luz Jorge Ribeiro
som Eduardo Gama
vídeo Luís Lopes
estreia Teatro da Cerca de São Bernardo, Coimbra, a 15 de Abril de 2010
Mais com mais
Não era necessário transformar este segundo momento do ciclo de co-produções entre A Escola da Noite e a Companhia de Teatro de Braga numa trilogia para mostrar o que pretendíamos. Nem foi por isso que o fizemos. A opção surgiu já com o projecto em andamento, em função da riqueza do material que tínhamos em mãos e dos resultados a que fomos conseguindo chegar com o próprio processo de trabalho.
Ainda assim, esta “multiplicação” de espectáculos acaba por ser uma boa imagem da forma como quisemos encarar a colaboração a que nos propusemos. A crise a crise a crise a crise tem, para além de todos, um perigo máximo: o de fazer com que aceitemos, desejemos ou sintamos que temos de abrigar-nos em porto seguro, à espera que a tormenta passe. O perigo de nos fazer concentrar nas fraquezas – nossas e alheias – e de nos convencer de que, se as juntarmos, seremos mais fortes. O perigo de baixar o nível de exigência e o erro de nos querer fazer acreditar que é possível e desejável fazer mais com menos.
Somos dos que nos resistem a este miserabilismo e dos que não aceitam esta inevitabilidade. A crise a crise a crise a crise é forte, afecta-nos e deixa marcas, mas não impede a escolha. Pelo contrário, torna-a mais decisiva. Encolhermo-nos ou arriscarmos? Estacionar ou subir a fasquia?
Numa época em que tanto se fala de empreendedorismo talvez fosse bom parar para pensar o que quer isso dizer em matéria de criação artística. A pretexto da crise, os criadores nacionais estão hoje sob uma tremenda, perversa e ilegítima pressão: com maior ou menor subtileza, tem vindo a instalar.se a ideia de que temos de perceber a dificuldade dos tempos. E de encontrar alternativas, construindo projectos financiáveis, enquadráveis, elegíveis, sustentáveis, rentabilizáveis. à custa do que for preciso e em nome de uma suposta capacidade empreendedora, assente no pragmatismo, na maleabilidade, na eficiência de gestão e na compreensão das regras do mercado.
Alguma coisa temos aprendido desta linguagem – palavras novas, afinal, para aquilo que as estruturas de criação desde sempre têm feito e sem o que o panorama português seria muitíssimo mais pobre. Mas não nos esquecemos nunca de que, em arte, o empreendedorismo que importa é o que move os criadores e os impele a comportarem-se como artistas. É aí que a criatividade realmente conta, é daí que surge a novidade, é apenas a partir daí que podemos (e devemos) ser dinâmicos, “pro-activos”, “criativos” na gestão e na produção. Por estranho que pareça, os dias que vamos vivendo aconselham-nos a repetir o que devia ser óbvio: no centro da actividade cultural e das políticas que a regulam tem de estar a criação artística. É esta que lhes dá conteúdo e sentido e que precisamente pode transformá-las num muito poderoso instrumento contra a crise.
As duas co-produções realizadas entre a Companhia de Teatro de Braga e A Escola da Noite – “Sabina Freire” em 2009 e agora a trilogia “1.José 2.Rubem 3.Fonseca” – assentam nestes pressupostos. São uma conjugação das nossas maiores forças e potencialidades para que possamos chegar mais longe do que conseguiríamos sozinhos. Juntámos meios (elencos, equipas técnicas, equipas de produção, orçamentos) para podermos subir a fasquia, aceitando e partilhando todos os riscos que daí decorrem. O de fazer um texto já quase esquecido na história do teatro português, lutando contra a desconfiança, o preconceito e, sobretudo, contra o desconhecimento; e, agora, o de experimentar a abordagem a todo o universo literário de um autor (não teatral) como Rubem Fonseca, sem um guião definido à partida.
Quando a aposta é convicta e partilhada, há sempre o risco de as coisas correrem bem. Tão bem que, ao fim de três meses e meio de trabalho diário e intensivo, temos não um mas três espectáculos para oferecer aos nossos espectadores – “culpa” do autor, responsabilidade nossa, desafio e oportunidade para o público.
E um sinal claro de que é realmente possível fazer melhor e fazer mais. Com mais.
A Escola da Noite | Companhia de Teatro de Braga
in folheto de apoio ao espectáculo, Abril 2010

