
textos “O Trágico à Força”, “O Urso”, “O Pedido de Casamento”, “O Canto do Cisne”, “Os Malefícios do Tabaco” e “O Jubileu” de Anton Tchékhov
tradução, a partir do original russo António Pescada
dramaturgia, encenação e espaço cénico António Augusto Barros
elenco António Jorge, Maria João Robalo, Miguel Magalhães, Pessoa Júnior, Sílvia Brito e Sofia Lobo
figurinos Ana Rosa Assunção
objectos cénicos e adereços António Jorge
desenho de luz Danilo Pinto e Sílvia Brito
selecção musical a partir de fragmentos de Liszt, Debussy e Shostakovitch Sílvia Brito
estreia Oficina Municipal de Teatro, Coimbra, a 15 de Março de 2007
A Arte Menor
Escolhido desde o início dos trabalhos, o título deste espectáculo foi assumido como uma espécie de provocação, que salientava a injusta e frequente desvalorização das peças em um acto no conjunto da obra teatral de Anton Tchékhov. Três anos depois de termos apresentado “O Cerejal”, propusemo-nos agora dedicar um significativo período de tempo a aprofundar a exploração das “peças pequenas”, que consideramos, em várias medidas, como paradigmáticas da dramaturgia tchekhoviana. Na forma breve (e à semelhança do que fez nas centenas de contos que publicou), Tchékhov exercita com uma extraordinária eficácia as características que o tornam singular na história do teatro universal. “Falsos” vaudevilles, “falsos” monólogos, dramas risíveis, estas peças são sempre mais do que parecem à primeira vista, oferecendo-nos diferentes níveis de leitura, em que o trágico e o cómico se alternam em fracções de segundo e em que o humor (levado, por vezes, ao limite do burlesco mais extravagante) nos interpela profundamente e nos faz oscilar entre a gargalhada e o nó na garganta.
Ao contrário de outros grandes dramaturgos, Tchékhov recusa o épico, o didáctico, o panfletário. Oferece-nos situações banais, personagens frívolas, pequenas tragédias individuais. Parece dizer-nos: façam delas o que quiserem – divirtam-se, comovam-se, reflictam sobre a explosão social que eu senti anunciar-se, vejam-se ao espelho –, mas não procurem respostas, façam antes as perguntas que elas vos suscitarem.
De uma forma ainda mais evidente do que nas peças grandes, é a vida de todos os dias que Tchékhov transporta para o palco nestes textos. Sem falsas e impossíveis objectividades (é do acto criativo que falamos), mas sem moralismos nem juízos maniqueístas.
Arte, portanto, e Teatro no seu melhor.
Daí que hoje, três meses depois do primeiro ensaio e quando nos preparamos para partilhar com o público a nossa abordagem às peças em um acto de Tchékhov, nos apeteça questionar o sentido da provocação. Faz sentido considerar uma provocação que a 40ª produção d’A Escola da Noite seja construída a partir da obra de um dos mais importantes autores da dramaturgia universal? Faz sentido considerar uma provocação que tenhamos decidido encomendar novas traduções a partir do original para textos cujas versões disponíveis em português tinham mais de quarenta anos? Faz sentido considerar uma provocação o facto de, ao fim de 15 anos de actividade, continuarmos a considerar o acto de criação artística, a experimentalidade e o rigor no trabalho teatral como os elementos essenciais do nosso projecto? Faz sentido considerar uma provocação o facto de continuarmos a acreditar que o Teatro é uma arte e que aí reside e se define a sua utilidade social?
Faz.
A Escola da Noite
in programa do espectáculo, Março 2007

