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32. 2 Perdidos Numa Noite Suja [2004]

de Plínio Marcos
encenação e versão Sílvia Brito
elenco Carlos Marques e Ricardo Correia
espaço cénico António Jorge
figurinos Ana Rosa Assunção
luz Rui Simão

estreia Oficina Municipal do Teatro, Coimbra, a 29 de Outubro de 2004

notas de encenação

Da solidão à solidariedade pode ir um grande passo

1. Dois homens trabalham no mesmo sítio, habitam o mesmo espaço e não têm mais ninguém. Estão confinados um ao outro. Quando chegam a casa, à noite, tudo o que querem é estar sozinhos. A presença do outro não conta e, se se faz sentir, não é desejável. Disputam o seu espaço de solidão como se esse fosse o seu bem mais precioso.

2. A solidão de um é ruidosa para o outro, no seu silêncio ou na sua música e extravasa o seu reduto, metamorfoseia-se para mostrar que existe: fala.

3. A palavra da solidão eclode, atravessa o espaço como um tiro. O seu grito quer o silêncio mas já não há retorno, palavras pedem palavras. Não muitas, poucas. Repetem-se insistentemente as mesmas, responde-se insistentemente com as mesmas, quase um vício. Porque não se conhecem outras — só a vida ensina as palavras.

4. Palavras de guerra, expelidas brutalmente e repetidas até à exaustão, numa partitura traiçoeira de possibilidades falhadas de comunicação. As palavras novas, portadoras de surpresa, não chegam a confortar, apenas adensam o desencontro, apenas acentuam a perda progressiva do que resta.

5. Não há acordo possível — aqui, só a violência pode ser afecto?

6. Perante o inaceitável que nos rodeia e envolve, a dúvida entre a revolta e a conformidade.

7. Sociais, fazemos compromissos, renunciamos aqui a dar um passo em frente. E encurralados? E sem palavras que nos ajudem? Quando já só queremos repôr o silêncio? Quando o queremos definitivo?

8. O ser solitário não consegue reunir a força necessária para reagir contra o que, organizado, se lhe apresenta como factor do seu infortúnio individual. Não se aliando a outro para lutar por si e por um terceiro, só lhe resta a aniquilação, a vingança ou a morte. É a lei do “salve-se quem puder”, “como puder”. É a aplicação da imperfeita justiça, a do desespero, a que se faz sozinha, cega. Sobre quem estiver mais à mão.

9. As vozes que plínio trouxe ao teatro não são só as dos seres marginais em tempos de ditadura. São as vozes que, em todos os tempos, continuam abafadas sob a realidade de desigualdades gritantes — são as vozes da geral pobreza humana de meios de subsistência, de acesso à beleza ou de conforto nos afectos que só muito poucos conseguem iludir.

Sílvia Brito
in folheto de apoio ao espectáculo, Outubro 2004