
a partir de “Comédia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra” (excertos), “Farsa dos Almocreves”, e “Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela” (excertos), de Gil Vicente
encenação e dramaturgia Sílvia Brito
figurinos Ana Rosa Assunção
desenho de luz Orlando Worm
adereços António Jorge (“serpente” e “leão” na “Divisa” por Luís Mouro)
cenografia António Jorge
núcleo expositivo Ana Rosa Assunção
estreia Oficina Municipal do Teatro, Coimbra, a 30 de Janeiro de 2003
Almocreves e outras cousas que em Coimbra se fizeram em 1527
Para esta nova visita à obra vicentina, segundo momento do projecto Vicente n’A Escola, escolhemos como pretexto as ligações, provavelmente ainda pouco exploradas, de Gil Vicente a Coimbra e às Beiras de uma forma geral.
Atravessando uma das suas fases mais criativas, Vicente acompanhou a Corte de D. João III quando esta, fugindo da peste que assolava Lisboa e arredores, se instalou temporariamente nesta cidade. Terão permanecido em Coimbra durante pouco mais de seis meses, tempo suficiente para que aqui fossem representadas três peças, precisamente aquelas que hoje convidamos os espectadores a partilharem connosco: “Comédia sobre A Divisa da Cidade de Coimbra”, “Farsa dos Almocreves” e “Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela”.
Ainda que em registos diferentes, é sob o signo da comédia que Gil Vicente exercita quer as suas técnicas dramáticas quer a sua acutilância (em alguns casos sarcástica) na observação e denúncia da realidade social que o rodeia a si e a todos quantos assistiam às suas representações.
Longe de constituirem uma homenagem a Coimbra (as críticas chegam a ser bem severas, de acordo com a imagem de uma cidade parada, tradicional, conservadora e rural que predominava entre os cortesãos), estas obras são hoje, no entanto, um convite a uma viagem ao passado da cidade e a uma época em que a escassez de recursos económicos coexistia com a riqueza cultural e artística, proveniente sobretudo da actividade do Mosteiro de Santa Cruz e, mais tarde, da Universidade, regressada definitivamente em 1537.
Não sendo dos textos mais conhecidos de Gil Vicente (estão, desde logo, excluídos dos currículos escolares), nem por isso eles podem ser considerados obras menores. Se nos cabe a nós, companhia de Coimbra, valorizá-los e divulgá-los aos públicos portugueses, é com orgulho que o fazemos. Não nos move, naturalmente, nenhum sentimento de bairrismo exacerbado – quantos de nós não subscreveríamos, hoje, muitas das pertinentes observações de Mestre Gil? Mas parece-nos fundamental continuar a apostar na exploração do vasto legado vicentino, insistindo, como vimos fazendo de há onze anos a esta parte, na construção de um estilo que busca o rigor mas ensaia desassombradamente a transposição cénica.
A Escola da Noite
in programa do espectáculo, Janeiro 2003






