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22. Quem Come Quem [2000]

de Vários Autores
encenação Stephan Stroux
elenco Aires António Major (São Tomé e Príncipe), Amor de Fátima Mateus (Angola), António Jorge (Portugal), Arlete Dias (Brasil), Bia Gomes (Guiné-Bissau), Fernando Candeias (Portugal), Jaime Monsanto (Portugal) José Évora (Cabo Verde), Melquisalem Sacramento (Brasil), Mestre Capitão (Angola), Rogério Boane (Moçambique), Simone Iliescu (Brasil), Sofia Lobo (Portugal) e Tilike Coelho (Brasil)
dramaturgia Sebastião Milaré
cenografia Stephan Stroux
figurinos Ana Rosa Assunção
desenho de luz Stephan Stroux
adereços Stephan Stroux

estreia Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra, a 5 de Julho de 2000

quem se interroga já percebeu?

Este trabalho, que agora se estreia em Coimbra e Braga depois de quase dois anos de viagem, consagra uma nova realidade – a existência de uma rede activa de cooperação teatral na lusofonia, capaz de gerar sinergias para a concretização de novos projectos numa escala impensável há uns anos atrás.

Neste sentido “Quem come quem” é uma grande criação colectiva que,

  • sem A Escola da Noite, a Companhia de Teatro de Braga e o Teatro Vila Velha, da Bahía, estruturas de criação artística que apoiaram e enriqueceram esta ideia desde o primeiro momento,
  • sem a Escola Nacional de Artes Visuais (Moçambique), sem o Mindelact (Cabo Verde), sem o Elinga-Teatro (Angola), nossos parceiros na organização dos workshops africanos,
  • sem o Centro Cultural de São Paulo (Brasil), onde se fechou o ciclo de formação e de pesquisa deste projecto,
  • sem o Teatro Académico de Gil Vicente, que aderiu com entusiasmo a ponto de abrir as suas portas a uma estreia, onde sempre se arrisca tudo,
  • sem o patrocínio do Ministério da Cultura Português e do secretariado executivo da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), neste último caso uma honra que é concedida, pela primeira vez, a um projecto da Cena Lusófona, facto que nos agrada realçar,

sem estas estruturas, sem esta rede de afectos, cumplicidades e apoios concretos, dos maiores aos menores, “Quem Come Quem, dizíamos, não teria chegado ao palco.

Na hora de começar o espectáculo, o projecto ganha catorze rostos concretos a quem, na sua frágil solidão de actores, pedimos que resgatem infâncias, memórias essenciais, comunidades, povos inteiros, continentes. Pedimos tanto a quem só pode a humana e presencial tentativa…

Mas eles aí estão, os actores, de olhos vendados, prospectores da inquietação humana, atirados para o campo da batalha com a incumbência de descobrirem se seremos capazes de nos entender.

Ariane Mnouchkine dizia que representar é ficar nu em palco. Todo o roteiro deste trabalho é escrito em cima do processo de desnudamento que cada actor empreendeu, em busca da sua verdade, de uma consciência revisitada da identidade pessoal e social. Este processo de desnudamento, ofertado por todos a todos, foi aqui reelaborado por Stephan Stroux e Sebastião Milaré, constituindo a própria matéria do espectáculo.

Este desnudamento sacrificial que o teatro promove para que se possa começar a representar, a dialogar, é também a sua mensagem simbólica de futuro.

Por isso, este espectáculo, marcando o fim de um ciclo, ficará sempre como referência nesta longa caminhada de intercâmbio, neste novo descobrimento dos outros que nos força, em simultâneo, a uma auto-avaliação – o que queremos com este diálogo? o que temos nós para dar neste processo de troca? que marcas e valores transportamos nós das comunidades que somos? que imagem têm, hoje, os outros de nós?

Também aqui estas perguntas, eternamente vigilantes e eternamente adormecidas a cada passo que damos, dirigem-se tanto à vida quanto ao interior do teatro, tanto ao discurso quanto ao método.

António Augusto Barros, Cena Lusófona, Junho 2000
in programa do espectáculo, Julho 2000