
de Milan Kundera
tradução Teresa Curvelo
encenação Sílvia Brito
elenco António Jorge, João Brás, Margarida Dias, Mário Montenegro, Nelson Rodrigues, Paula Marques, Ricardo Silva e Sofia Lobo
assistência dramatúrgica António Augusto Barros
cenografia João Mendes Ribeiro e Sílvia Brito
figurinos e adereços Ana Rosa Assunção
luzes Rui Raposo
estreia Pátio da Inquisição, Coimbra, a 7 de Outubro de 1999
Fatal como o destino: Jacques e o seu Amo revisitado
Jacques e o seu Amo meteram-se em sarilhos numa estalagem. Na manhã seguinte, na eminência de terem doze rufiões no seu encalço, o Amo só pensava em afastar-se dali o mais depressa possível. Jacques, para desespero do seu Amo, obstinava-se em seguir a passo, imperturbável. Não é verdade que tudo está escrito lá em cima? Ora, se estiver escrito que os doze malfeitores os apanharão para quê fugir? Por outro lado, se estiver escrito que eles não os apanharão, para quê tanta pressa?
O que temos aqui? Um criado filósofo? Ou simplesmente impertinente? Um determinista impoluto? Ou será antes um rematado preguiçoso, para quem qualquer argumento serve, ora para servir o seu Amo, ora para não o servir, ora para nos contar a história dos seus amores (oh, como o seu Amo gosta de o ouvir!), ora para a interromper?
Esta notável personagem — Jacques, o fatalista — na sua viagem sem origem nem destino, encontramo-la pela primeira vez pela mão de Diderot, que nos conta esta e outras histórias no seu livro “Jacques, o Fatalista”. É impossível não nos apaixonarmos pela liberdade tomada por Diderot neste seu romance, uma liberdade formal que mais não é do que o fruto de uma verdadeira liberdade de espírito. Liberdade que ele tão bem aproveita para filosofar, ou simplesmente tagarelar, brincar com o leitor, mudar de assunto quando menos se espera ou, numa palavra, divertir-se e divertir-nos. Um pouco como a sua própria personagem.
Diderot escreveu este romance no advento da revolução francesa, em pleno recrudescimento do espírito científico. Estava pronto o cadinho de ideias que iria substituir a Santíssima Trindade por outra bem mais acutilante: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Há períodos assim, em que a humanidade se liberta da figura tutelar de um Deus — como recorda Yourcenar, com saudade de um tempo fantástico que não viveu, quando em Roma os Deuses começaram a empalidecer e Jesus Cristo ainda não tinha nascido.
Entregues a si próprios e à sua própria espiritualidade, aos homens de bom senso resta-lhes pôr as coisas no seu devido lugar: a vida é o que é e não vale a pena complicá-la.
Parece paradoxal que Diderot nos apresente a sua visão do mundo, em que predomina o livre- arbítrio, através de uma personagem que, aparentemente, mais não faz do que invocar “o que está escrito lá em cima”. Ah, mas Jacques usava a sua tese determinista com moderação. Não se coibia de fazer pelo destino sempre que tal lhe parecia indicado — trazendo no bolso, por exemplo, as chaves dos quartos dos doze figurões que iriam persegui-los. Na verdade, se repararmos melhor, “o que está escrito lá em cima” pode ser invocado para fazermos o que muito bem entendemos. E temos assim que Jacques, se não abdica de um Deus, coloca-o pelo menos ao seu serviço.
Esta mensagem de boa disposição e paz interior não passou despercebida a um dos maiores romancistas do nosso tempo, Milan Kundera, que, no início da década de setenta a revisitou, ao ponto de a passar ao papel sob a forma de texto de teatro. E também não nos passou despercebida a nós, que a metemos nas tábuas, na forma da nossa 20ª produção.
Kundera lançou mão da liberdade formal proposta por Diderot: o plano da memória mistura-se muitas vezes com o plano narrativo e pouco falta para que Jacques e o seu Amo se engalfinhem com as personagens que eles próprios evocam: um desafio acrescido ao trabalho do actor.
É esta fascinante combinação entre um clássico que podia ter sido contemporâneo — o espírito de Diderot é, na verdade, intemporal — e um contemporâneo que tão bem soube interpretar os clássicos, que tanto nos seduziu.
É por isso que sempre soubemos que este encontro com “Jacques e o seu Amo” era, no fundo, apenas uma questão de tempo… uma fatalidade… ou, como diria Jacques, estava escrito lá em cima…
A Escola da Noite
in programa do espectáculo, Outubro 1999



