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18. Pranto [1998]

de Gil Vicente
versão Luciana Stegagno Picchio
consultor para a obra de Gil Vicente José Bernardes
encenação António Augusto Barros
elenco Isabel Leitão, João Saboga, Mário Montenegro, Nuno Pinto e Ruy Malheiro
cenografia João Mendes Ribeiro e António Augusto Barros
música Paulo Vaz de Carvalho
figurinos Ana Rosa Assunção
luzes Mário Montenegro
assistência de encenação Sílvia Brito

estreia Pátio da Inquisição, Coimbra, a 18 de Novembro de 1998

Pranto versus Parda

A minha leitura do Pranto é claramente social.

A personagem, tal como a leio, serviu a Gil Vicente para, com toda a sua arte, opinar sobre a grande crise social da época, a carência geral do povo, que se ri de si próprio para afastar o mal. É um momento de catarse como a boa arte soube sempre fazer.

Pretendemos deixar incólume esse “cerne vicentino” e aclarar este conteúdo.

A forma tradicional, que trabalha sobre a mimesis da bêbada e os seus clichés, é, paradoxalmente, a mais ilusória, a menos realista. Porque tem uma eficácia de sentido contrário. Restringe o universo temático e impede (perturba) a visão crítica no espectador.

Impedimento estético, impedimento semântico.

A ênfase na bêbada é a ênfase no vinho, no vício e nos seus malefícios, género “profilaxia social”. É um enfoque condicionado, condicionador. Também ao nível estético, para quem faz.

A carência de vinho neste Pranto de Gil Vicente é uma fome de tudo, a fome que sofre a “minhoca que puseram a secar”, torturada e impotente, é a carência de tudo em todo um povo. Um percurso ressacado pelo meio da sociedade sofredora que, contudo, não se rende e, a golpes de casquinadas de riso, se supera.

Qual a função da arte em certos momentos mais agudos de crise social? Gil Vicente arma a sua arte em um quadro geral que afecta, hélàs, a maioria do povo.

Quem dentre as minorias políticas ou intelectuais pensa seriamente, honestamente, no significado social do sofrimento, da falta generalizada de horizonte de vida? A quem aflige o destino das maiorias, para além da altura do voto, para aquém da vidinha?

É isto que o enfoque na bêbada não suporta: uma denúncia mais larga, a emergência do sofrimento do povo. A emergência da angústia no povo. que provoca a arte. que a arte provoca.

O enfoque na bêbada distrai, “humoriza”, paralisa.

Ao que se sabe, o Pranto é um dos trabalhos de maior apuro técnico em todo o reportório vicentino. O que nos encoraja a rejeitar essa visão anedótica.

Trabalhámos, então, num registo contrário a este da “bêbada”. Um registo mais sóbrio (!), mais técnico. Um registo que intenta contrariar o risco da emoção sem deixar de a enunciar.

O esforço exorcista da actriz, na criação de um labor próprio, de uma gramática, de um estilo que alude ao percurso da história e das formas estéticas, deverá também ser esclarecedor de um sofrimento geral, existencial, que leva eventualmente ao vício… ou ao vício de sermos só nós mesmos e não os outros ao mesmo tempo…

Na intenção de corresponder ao labor do velho mestre, trabalhámos esta filigrana teatral com a aspereza, a rudeza da Parda, a denúncia carnavalesca do “mal que a muitos toca” mas também a angústia existencial dos que não aguentam, são impotentes e secam pelo caminho, incapazes de suster todo o peso da vida, espécie de anjos-negros, heróis negativos, solitárias angústias com brilho de fantasmas, que nos assaltam, noite e dia nos assaltam, para nos oferecer o outro lado, a sombra da vida.

“Sábios são os que chegaram a tocar as duas margens e molharam o corpo no rio.”

António Augusto Barros Coimbra, 27 de Outubro de 1998
in programa do espectáculo, Novembro 1998