
de Nelson Rodrigues
encenação José Caldas
versão José Caldas
elenco António Jorge, Mário Montenegro, Rosário Romão, Sílvia Brito e Sofia Lobo
direcção musical Tilike Coelho
cenografia João Mendes Ribeiro
figurinos Rosa Ramos
luzes Mário Montenegro
assistência de encenação Avelino Neto (Dikota)
estreia Pátio da Inquisição, Coimbra, a 27 de Maio de 1998
Quem era esse cara, afinal?
Nelson Rodrigues costumava dizer que aquilo a que chamamos reputação constitui, afinal, a soma de todos os equívocos que uma pessoa suscita: “Geralmente, ocorre a seguinte incoerência: — o sujeito é uma coisa e a sua reputação outra”.
Com o tempo, aprendemos que o próprio Nelson foi uma das maiores vítimas desta máxima. Mas quando nos propusémos trabalhar um dos seus textos, a nossa idéia sobre a sua vida e obra não era certa nem errada — praticamente não era.
Este estado de coisas reflecte bem o distanciamento que se instalou entre os chamados “países irmãos”. O Brasil é, para a maior parte de nós, um conjunto de ideias feitas. E, por extensão, o mesmo acontece com todas as comunidades de língua portuguesa. A Escola da Noite sempre procurou contrariar esta realidade. A opção pela realização deste espectáculo é mais um passo num percurso que já nos levou à Guiné e a Moçambique e que tem procurado fazer do confronto com outras formas de fazer teatro uma parte integrante do percurso desta companhia.
Quando decidimos encetar a (re)descoberta do Brasil, quase 500 anos depois da primeira, Nelson Rodrigues surgiu-nos, pelo menos, como um autor incontornável. A sua obra é unanimemente reconhecida como fundamental na literatura brasileira e as primeiras leituras só aumentaram a nossa vontade de trabalhar os seus textos.
Só não contávamos com a sua capacidade de envolvência. Sem que déssemos por isso, o universo de Nelson Rodrigues enredou-nos, foi-se tornando cada vez mais apetecido. Ao lermos a última das suas dezassete peças ficámos com pena por não haver mais. Mas logo as primeiras se voltaram a insinuar, descobrindo novas dimensões que estavam inscritas no texto, nas quais não havíamos reparado de início.
Esta capacidade de sedução dos textos de Nelson Rodrigues é fruto, desde logo, da sua capacidade para reflectir a alma do povo brasileiro — que, por sua vez, tem muito que ver com a alma portuguesa, inclusivamente nessa tendência para o desvio e para obsessão que é figura central na sua obra. Por outro lado, dom da palavra, o domínio da língua, a extraordinária mestria da sua escrita transpira por todos os seus textos, mesmo na mais simples das suas crónicas do futebol. Mas, mais do que isso, os textos de Nelson são-nos próximos porque, em tudo o que ele escreve, por muito absurdo ou escabroso que possa parecer, existe sempre um vasto fundo de verosimilhança. Com conhecimento que só lhe podia vir do contacto íntimo com a realidade brasileira, Nelson Rodrigues sabia com precisão o que queria dizer. Basta lermos as suas didascálias, autênticas indicações de encenação.
O facto de essa obra atravessar um período de quase quarenta anos faz desse corpus literário um elemento estruturante e definidor de toda a dramaturgia brasileira contemporânea. Em Portugal, passe a falta de patriotismo, Nelson não tem paralelo. O que não nos impede de o sentirmos como nosso. Pode não existir um Nelson Rodrigues em Portugal, mas existe, luminoso, um Nelson Rodrigues em português.
Que mais poderíamos desejar como matéria de ligação entre as duas comunidades?
A Escola da Noite
in programa do espectáculo, Maio 1998






