
de Eurípides
tradução Maria Helena da Rocha Pereira
encenação Konrad Zchiedrich
elenco António Jorge, David Cruz, Isabel Leitão, Rosário Romão, Sílvia Brito, Sofia Lobo e Sónia Gonçalves
cenografia Konrad Zchiedrich
figurinos Konrad Zchiedrich
desenho e operação de luz Pedro Machado
estreia Pátio da Inquisição, Coimbra, a 30 de Outubro de 1997
A Escola da Noite e As Troianas
A história contada em As Troianas começa quando acaba outra, mais conhecida — a da guerra entre gregos e troianos, travada por causa da bela Helena, que durou dez anos e que terminou quando os gregos conseguem finalmente entrar na cidade com o auxílio do famoso Cavalo de Tróia.
A história de Eurípides, a nossa história, começa poucas horas depois dessa batalha final e revela-nos o destino trágico dos vencidos, em especial o das mulheres de Tróia, ainda em estado de choque após a derrota. É tal a extensão do drama de Eurípides, uma das tragédias mais lancinantes do teatro grego, que o nosso trabalho durante os ensaios se tornou, por vezes, quase insuportável.
Às vezes, quando os jornais mostram na capa a fotografia de uma mãe argelina que perdeu os seus oito filhos num massacre, apetece fechar os olhos. Passar directo para a última página e ler a banda desenhada. Mas, como nos ensinaram nos bancos da escola, descobrimos que a representação do horror pode ser um experiência redentora.
Os gregos, aliás, bem o sabiam. A exposição dos horrores, a assunção plena dos males da sociedade, da pequenez e dos defeitos da condição humana é uma característica da civilização grega que não encontra paralelo em nenhuma outra das chamadas culturas ocidentais — sempre pronta a glorificar os seus heróis, por muito que o seu comportamento possa estar longe de ser louvável.
Fazer As Troianas, ou fazer um clássico do teatro grego, não é uma opção fácil. Mas é uma opção incontornável, mais tarde ou mais cedo, no percurso de uma companhia de teatro que, como a nossa, pretende fazer caminho caminhando.
Não apenas pela beleza do teatro grego em si, pela sua dramaturgia rigorosa, ou pelos seus temas (não é em vão que muitos escritores e encenadores se queixam que tudo o que existe em teatro hoje em dia já foi feito pelos gregos há mais de dois mil anos atrás).
Mas porque Eurípides, grego, ao dar voz às mulheres de Tróia (tal como Ésquilo, grego, ao falar pelos persas), está simplesmente a mostrar-nos por que razão a civilização grega foi, apesar de tudo, considerada uma civilização superior. A mostrar-nos que, nos nossos tempos mais do que nunca, enterrar a cabeça na areia continua a ser a pior maneira de resolver os problemas do mundo.
A Escola da Noite
in programa do espectáculo, Outubro 1997

