
a partir de “O Improviso de Ohio”, “Eu Não”, “Fragmento de Teatro I” e “Respiração”, de Samuel Beckett
tradução José Vaz Simão e Alberto Nunes Sampaio
encenação António Augusto Barros
cenografia António Augusto Barros e João Mendes Ribeiro
figurinos e adereços Ana Rosa Assunção
assistência de encenação Sílvia Brito
produção José Fonseca
banda sonora José Vaz Simão
desenho e operação de luz Nuno Patinho
estreia Pátio da Inquisição, Coimbra, a 19 de Dezembro de 1996
[s/ título]
Beckett – Primeira Jornada foi, para A Escola da Noite, um dos espectáculos mais ansiados e, ao mesmo tempo, o mais inquietante, até aqui, desta série de Pequenos Cartões de Visita.
A poucos dias da sua estreia coexistem, na companhia, sentimentos de diversa ordem. Por um lado a velha falta de condições que, sistematicamente, nos impede de gozar, com a tranquilidade merecida e necessária, a construção de cada trabalho. Por outro lado, sentimos a nossa própria estranheza, inerente ao universo sensível daquele dramaturgo irlandês e aos próprios resultados obtidos nesta primeira incursão.
Cada espectáculo que construímos pressupôs sempre uma clara partilha, com o público, de um processo de criação e aprendizagem sobre o que podia constituir matéria de reflexão humana e/ou teatral. Sem um interesse pedagógico evidente, mostrando, em cada momento, as nossas opiniões sobre o ser humano e sobre as suas vicissitudes e, ao mesmo tempo, o que nos interessava da experiência teatral. Foram sempre processos muito distintos, conduzidos pelos diferentes criadores que trabalharam connosco ou despoletados por alguns textos fundamentais (como “Susn” ou “Ella”, de Achternbush, “Auto da Índia” e “Floresta de Enganos”, de Gil Vicente, “Leôncio e Lena” de Büchner, “O Boné” de Thomas Bernhard e muitos outros, alguns dos quais apenas objecto de trabalho interno). Escolhas que, mais do que qualquer discurso teórico, foram definindo um discurso artístico específico para esta companhia.
“Beckett – Primeira Jornada” foi como que uma fase acelerada deste processo de amadurecimento, enquanto pessoas e enquanto “fazedores”. Se Beckett se foi tornando, no seu percurso, cada vez mais elementar, também nós nos testámos numa espécie de procura do “essencial” — um esforço de contenção quase obsessivo, uma forma de concentração no que é simples. Umberto Eco fala por vezes nos “protocolos” entre o narrador e o leitor. É impossível ao narrador contar tudo sobre uma personagem, sobre uma paisagem, ou mesmo sobre um instante. O narrador pede então ao leitor que faça parte do seu trabalho, completando no seu imaginário o universo que o narrador pretende criar. Beckett leva ao limite o esforço (e, em última análise, o protagonismo) do leitor / espectador que se envolva no seu trabalho. Vidas inteiras são expostas por sinais, sons, pequenos textos. Mais do que descrever, Beckett “instala” situações, sentimentos.
No entanto, este enorme volume de “não-dito” com que o espectador se depara parece não afectar o entendimento dos seus trabalhos. Se o texto em si nos parece entrecortado, as indicações de cena são precisas. Preciso é igualmente o ritmo dos textos, os sons, o discurso cheio de teatro. Em Beckett há uma espécie de sabedoria que, tanto no plano ético como estético, se constrói no rigor e na diversidade, no longo caminho traçado. Degustar cada palavra, cada silêncio, experimentar a doce incomodidade das suas personagens de cabelos enfraquecidos e mãos trémulas, é uma emoção que não se consegue partilhar na totalidade. Talvez o universo que se pede ao espectador para recriar seja, desta vez, de difícil digestão: a velhice, a solidão, o patético, aliados por vezes a um humor negro, colocam geralmente em evidência a incompletude da existência e das relações humanas.
A Escola da Noite
in programa do espectáculo, Dezembro 1996




