
a partir de “Tragicomédia de D. Cristóbal” e de “O Retábulo de D. Cristóbal”, de Federico García Lorca
tradução José Vaz Simão
versão para o espectáculo António Augusto Barros e José Vaz Simão
encenação António Augusto Barros
elenco António Jorge, José Vaz Simão, Rosário Romão, Silvia Brito e Sofia Lobo
cenografia João Mendes Ribeiro e António Augusto Barros
figurinos Ana Rosa Assunção
produção José Fonseca
banda sonora O Gato de Pascal
adereços Ana Rosa Assunção e João Mendes Ribeiro
desenho e operação de luz Nuno Patinho
assistência de encenação José Vaz Simão
estreia Pátio da Inquisição, Coimbra, a 4 de Outubro de 1996
Grandes esperanças
Na falta de uma publicação periódica própria, acabam por ser os programas das peças que, melhor ou pior, vão reflectindo os sucessivos “momentos” da companhia. As nossas vitórias e alegrias, mas também as nossas frustrações e planos adiados.
Com estes Amores vive-se um momento estranho de sensações contraditórias. Por um lado, estamos longe de dispor dos meios de há cinco anos atrás, quando nos foi possível contar com uma capacidade de produção e, essencialmente, de promoção que deveriam ser um dado adquirido para todo o teatro em português. Por outro lado, a “simples” abertura de um espaço próprio, por limitado que seja, faz-nos antecipar proezas nunca antes sonhadas: oferta teatral durante todo o ano, enraizamento da companhia na cidade, capacidade de sair de Coimbra com um espectáculo mantendo outro em cena, e muitas outras coisas.
A nível nacional, criam-se expectativas para uma grande renovação do teatro. Por outro lado, acaba por ser precisamente neste momento de optimismos que sentimos as maiores dificuldades para equipar e abrir um espaço — como se a abertura de um espaço próprio não fosse um momento excepcional, e crucial, na vida de um grupo. Como se a abertura de um espaço de trabalho para uma das companhias profissionais com apoio regular do Estado, isto é, a quem o Estado reconhece interesse cultural, não fosse um momento importante para o nosso frágil movimento teatral. A autarquia cedeu um espaço e fez nele obras de base. Compete agora ao Governo apoiar o seu equipamento. A insensibilidade e as orelhas moucas do Governo, ao longo de todo este ano, depois de nos ter criado expectativas de apoiar esse equipamento, somadas à insensibilidade já demonstrada no concurso aos apoios mantendo uma verba resultante de cortes drásticos, arbitrários e injustos, de que fomos vítimas nos últimos dois anos, faz-nos ficar apreensivos quanto à capacidade deste Governo para renovar profundamente o teatro. É quanto basta para percebermos como são contraditórios os sinais destes tempos que correm.
Aos Amores, 13ª produção da companhia e 2º dos Pequenos Cartões de Visita que escolhemos para assinalar a abertura desta nova sala, coube em sorte a abertura formal do espaço.
Não podia ser uma escolha mais apropriada. Não porque se cumpram sessenta anos sobre a morte de Lorca, mas simplesmente porque, no meio de tantos projectos e de tanta incerteza, é bom divertirmo-nos com os incríveis devaneios poéticos destes bonecos de García Lorca.
Eles, pelo menos, são feitos de pano e de enchimento, e ainda não têm medo de sonhar.
A Escola da Noite, Pátio da Inquisição, Setembro de 1996
in programa do espectáculo, Outubro 1996


