
de Gil Vicente
encenação Nuno Carinhas
elenco António Jorge, Carlos Borges, Carlos Sousa, Isabel Leitão, José Vaz Simão, Rosário Romão, Sílvia Brito e Sofia Lobo
cenografia João Mendes Ribeiro
figurinos Ana Rosa Assunção
desenho de luz Vítor Correia
adereços Luís Mouro
assistência de encenação Sofia Lobo
assistência de movimento Ana Varela
estreia Teatro Avenida, Coimbra, a 8 de Dezembro de 1993
O Ouro da Casa
Este é um espectáculo dos actores, a quem foi sugerido que andassem à deriva, antes de nos ancorarmos à forma deste divertimento. O elenco teria que se identificar como personagem colectiva, a troupe, paralelamente com o exercício das individualidades: Gil Vicente apresenta A Comédia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, pelo ensemble d’A Escola da Noite / A Escola da Noite apresenta-se / Carlos Borges apresenta a Comédia “feita e representada era do senhor de 1527” em 1993 pel’A Escola da Noite…
O encenador, (intruso convidado) é figura de mediação. Esteve, para estimular a soltura de todos ao gozo da representação, à invocação dos géneros e à insistência nas ultrapassagens; para ajudar a tornar cómodo e gostoso o que era impedimento — o bilinguismo vinha à cabeça da lista — e facilitar acessos a energias inexploradas; para assistir às repetições, somando e subtraindo sinais, sem deixar que o desejo de cristalização antecedesse a exploração das possibilidades líquidas; para facilitar a prática das imperfeições; para se ocupar da especulação sobre as outras deixas dramatúrgicas, a saber: acontecimento localizado em cubo—sala—paisagem, palco autónomo, caixa de luz e música onde os actores, vestidos com fragmentos de roupagens doutros e deste tempo, vindos desde há quatrocentos anos até este fim de século, nos revelam os segredos da Origem do Lugar. Tudo ligado pela Didascália que se diz — a cábula que usámos ficou presa à prova oral.
A Comédia é sobejamente estimulante na sua construção bizarra, o texto é de escrita fina e “sabor”, os personagens e a narrativa da lenda são universais: destino, padecimento, sobrevivência, desejo, metamorfose, morte.
Era/é este um objecto do teatro português: uma festa regrada mas com cheiro / “mui chã e moral”. E que melhor cidade e companhia para re-apresentá-la, tomando de assalto o espaço que é seu?!
Agora, “a la ventura sagrada lo dexo, y sálgome afuera”.
Laus Deo.
Nuno Carinhas, Intercidades, 25/11/93
in programa do espectáculo, Dezembro 1993




