
de Nicolau Maquiavel
encenação Ricardo Pais
elenco António Jorge, Carlos Borges, Carlos Gomes, Carlos Sousa, Isabel Leitão, José Neves, José Vaz Simão, Rosário Romão e Sílvia Brito
figuração Domingos Moreira e Miguel Amado
cenografia Nuno Lacerda Lopes
figurinos Jasmim de Matos
música Carlos Zíngaro
desenho de luz Orlando Worm
assistência de encenação Sílvia Brito e Carlos Gomes
estreia Teatro Avenida, Coimbra, a 3 de Julho de 1993
Um Rigor de Paixão
Duas palavras significativas de Ricardo Pais no texto que assina neste programa: rigor e paixão. Pelo que já conhecemos de Ricardo Pais desde o feliz encontro no TEUC com O Despertar da Primavera, podemos começar a distinguir, de facto, no percurso deste encenador, as obras que resultam de rigor e paixão em paralelo com outras marcadas por um estilo ou investimento pessoal diferentes.
Que espécie de conhecimento temos nós sobre a paixão, sobre a linguagem do corpo, sobre a morte? Que espécie de conhecimentos nos valem face ao desamor, à infelicidade, face ao frenesim vital do corpo à roda do amor, face à insónia, que espécie de resistência tem o homem face ao animal que nele repousa e às vezes acorda ou face aos monstros que o sonho da razão engendra?
Que fenda, que abismo nos abre a mentira no território afectivo? A que jogos recorre o homem para preservar no espelho social uma imagem que sabe não ser a sua, para iludir a verdade do seu corpo, a única verdade sólida que possui? Para evitar saber que o homem ou, pelo menos, os homens, não têm história mas apenas actualidade?
Para A Escola da Noite este trabalho tem motivos bastantes para uma importância acrescida. Por isso o entendemos como o fim lógico de um primeiro ciclo de vida da companhia em que se testaram capacidades e formas de actuação, se aprendeu muito em conjunto ao realizar seis espectáculos em ano e meio e se deu forma a uma estrutura teatral permanente, onde imperou a azáfama do fazer com o simultâneo prazer de questionar ideias e projectos.
Com Mandrágora voltamos ao início. Ricardo Pais tinha sido o primeiro encenador contactado pelo grupo quando se decidiu a constituição, antes da Capital do Teatro. Desde aí tem sido amigo e conselheiro de todas as horas. Mas era como encenador que o gostávamos de ver connosco e agora esse desejo concretizou-se.
Com Mandrágora voltámos também à essência do nosso projecto. Apresentávamo-nos com um nome herdado do cepticismo do séc. XVI inglês e da procura de um outro saber oposto ao saber cognoscível. Era uma espécie de talismã para um grupo que nascia na orla da Universidade e com vontade de afirmar uma outra maneira de estar no teatro.
Com esta Mandrágora o outro lado do conhecimento está na “carga erótica da noite” que o encenador encontrou, na eleição da linguagem do corpo enquanto linguagem primária sobre a qual se constrói o discurso e se encontra uma espécie de estado puro do prazer e do prazer de actuar. O rigor de paixão de Ricardo Pais dirigiu-se fundamentalmente para o actor, para o seu jogo de sedução inevitável que desvenda o artifício ao construi-lo diante dos nossos olhos, de tudo possuindo as chaves, espécie de agente contratado pelo homem-espectador, transmitindo a este a sensação de poder controlar o mundo e a sua própria vida.
Estamos no fim de um século que sentiu na carne que os meios empregues revelam sempre a natureza última dos fins. Vivemos o embuste demasiado tempo para o podermos esquecer e com ele partiram algumas das nossas melhores esperanças. Podemos estar, sorridentes e bem sucedidos, no limiar do pior dos mundos no qual existem nobres meios para fins injustos, o que torna inútil e aborrecida a nobreza dos meios, perpetua a injustiça existente e acabará por aviltar como gangrena doce toda a nossa vida.
Perdemos também a confiança na razão de estado, no Estado-Providência, no déspota esclarecido, na superioridade do príncipe, na ditadura do proletariado, na democracia de massas, na revolução cultural, na auto-gestão socialista, na democracia do doutor Pangloss, estamos todos fartos de gozar, em sede de riso amargo, com a treta destas expressões todas que, ao que parece, fizeram a nossa “história”. Tão decisiva como a violência é a paciência. O povo é de borracha, poderia ter pensado Maquiavel para teorizar o domínio do super-príncipe sobre a mediocridade geral. Mas do Maquiavel autor-político ao Maquiavel autor-teatral vai a diferença de sentidos de um mesmo verbo — representar. A política representa o mundo escondendo-o, as suas máscaras não se tiram nunca, excepto quando os políticos perdem a cabeça (às vezes são precisos quarenta anos ou mais). Ao contrário, o palco é feito com a ambição de expôr o mundo e o homem com todas as suas fraquezas e misérias. O antagonismo tem sido permanente. A imoralidade apregoada de Maquiavel é bem mais produtiva no teatro porque impõe o triunfo do amor e não o do poder. O teatro foi, por certo, a vingança sobre a ingratidão do príncipe.
Em cada época destas é a confiança no homem, no que ele tem de mais vital, que se nos apresenta como refúgio.
Necessitávamos de um novo renascimento em que o homem fosse a medida de todas as medidas. Esta economia serve o homem? Este progresso serve o homem? Esta ciência serve o homem? Esta ecologia serve o homem? Esta arte pode salvar o mundo?
O homem sem falsas moralidades, o homem sem barreiras económicas que o diminuam face a outros homens, o homem disponível para a beleza e capaz de seguir os seus mais puros sentimentos, o homem lúcido, com a lucidez do pessimismo deste século e a capacidade catártica dos séculos antigos, só esse homem poderá ser a medida de todas as coisas. Por isso é necessário voltar a ele e ao seu discurso de afirmação último — o da inteligência do corpo e da emoção como poderes regeneradores da consciência social.
A Escola da Noite
in programa do espectáculo, Julho 1993


