
texto de Manuel Teixeira-Gomes
encenação Rui Madeira
elenco André Laires (CTB), António Jorge (EN), Carlos Feio (CTB), Jaime Soares (CTB), Lina Nóbrega (EN), Miguel Magalhães (EN), Ricardo Kalash (EN), Sílvia Brito (EN), Solange Sá (CTB) e Thamara Thais (CTB)
cenografia Rui Anahory
figurinos Sílvia Alves
desenho de luz Fred Rompante
criação de som e imagem Luís Lopes
estreia Theatro Circo, Braga, a 30 de Outubro de 2009
Redes. Sinergias. Intercâmbio. Parcerias. Estruturas de criação artística. Língua portuguesa. Descentralização. Cidades.
De vez em quando, é útil refrescar o sentido de determinados conceitos. Praticando-os.
“Sabina Freire” é o primeiro momento de um programa de duas co-produções entre a Companhia de Teatro de Braga e A Escola da Noite – Grupo de Teatro de Coimbra. Um projecto a dois anos que começa por ser uma auto-provocação e um desafio que nos quisemos impor. Contra qualquer tendência para a instalação, contra a segurança dos processo já testados, contra os preconceitos – próprios e alheios. Em cada um destes momentos, os responsáveis artísticos das companhias dirigem com diferentes e novos métodos de trabalho, abordagens estéticas e modelos de organização. A unir os dois espectáculos, uma das linhas de intervenção que estas estruturas partilham há muito: a valorização e divulgação da literatura de língua portuguesa (dramática e não só), em todas as suas cambiantes e origens geográficas.
Com “idades” e percursos diferenciados, a CTB e a EN souberam construir, ao longo dos anos, várias oportunidades para trabalhar em conjunto: assegurando directamente um intercâmbio regular de espectáculos e a presença regular de cada uma na cidade da outra; na Plataforma das Companhias, onde debatem e intervêm sobre a particularidade das estruturas de criação sediadas em cidades de média dimensão; no âmbito do projecto da Cena Lusófona, onde têm aprofundado o intercâmbio teatral com agentes e criadores dos vários países de língua portuguesa e com a Galiza. Foi aliás com a Cena Lusófona (e com o Teatro Vila Velha, de Salvado da Bahia) que realizaram, há quase dez anos, a sua primeira co-produção – o projecto “Quem Come Quem”, com a participação de actores de todos os países de língua portuguesa.
Vários factores contribuem para esta proximidade, mas talvez seja possível resumi-los num conjunto de princípios que a definem a nossa forma de estar no teatro e de conceber o nosso próprio papel no difuso sistema teatral português: a defesa do interesse público da criação artística, assumida como um direito universal das populações mas também como eixo fundamental de desenvolvimento das cidades e das regiões; a preocupação com a clarificação de conceitos e com a definição de regras transparentes e de objectivos contratualizáveis na relação entre o Estado e as estruturas de criação; a valorização da figura de “companhia” enquanto projecto artístico com identidade própria, reconhecível pelo público e garante da diversidade cultural; a contribuição para o aumento da qualidade da formação artística no país; a capacidade de interagirem e de crescerem com as cidades onde trabalham, com os seus públicos e as suas instituições; o contributo concreto para a afirmação do profissionalismo no sector da criação teatral e a reivindicação da urgência na definição do estatuto profissional dos artistas; a vontade e o esforço em assegurar uma circulação nacional do seu trabalho, conciliando-a com a realização de significativas temporadas nas suas cidades.
Na relação entre as duas companhias faltava, ainda assim, o passo seguinte: cruzar os projectos artísticos, fundindo-os temporariamente para criar algo de novo. Neste “Sabina Freire” não verão um espectáculo da CTB nem uma produção d’A Escola da Noite. A integração foi de tal forma profunda que o que aqui se apresenta é uma espécie de terceira e nova companhia – efémera, sem dúvida, mas feita do melhor que temos para oferecer.
Nos já ganhámos. Abrindo-nos ao outro, fomos capazes de trocar, de aprender, de partilhar de descobrir em nós próprios qualidades (e defeitos) insuspeitados.
É essa riqueza que agora queremos começar a partilhar com os públicos de Braga, de Coimbra e das várias outras cidades onde vamos apresentar este espectáculo. Convidando-vos a fazer o mesmo percurso que fizemos, certos de que estamos, cada um de nós, em muito boa companhia.
Companhia de Teatro de Braga | A Escola da Noite
in folheto de apoio ao espectáculo, Outubro 2010



