
textos de Franz Kafka
encenação e dramaturgia António Augusto Barros
traduções Ana Maria Freire Damião, João Barrento, José Maria Vieira Mendes e Sofia Lobo
elenco Ana Mota Ferreira, António Jorge, Heloísa Simões, Igor Lebreaud, Maria João Robalo, Miguel Magalhães, Ricardo Kalash, Sílvia Brito e Sofia Lobo
espaço Cénico António Jorge
adereços e máscaras António Jorge
figurinos Ana Rosa Assunção
vídeo Fátima Ribeiro
desenho de luz Danilo Pinto
espaço sonoro Eduardo Gama
estreia Teatro da Cerca de São Bernardo, Coimbra, a 3 de Abril de 2009
Neste “grande teatro do mundo” do século XX (assim mesmo apresentado no romance fragmentário América, no episódio do “Teatro de Oklahoma”), os actores foram abandonados pelo contra-regra (Deus? a razão?) à sua sorte num grande palco onde perderam por completo o sentido das marcações.
A maior parte dos comentadores de Kafka vê as personagens desta grande comédia na situação de espera sem esperança, livres no meio desse palco, e por isso perdidas. Gostaria de poder acreditar que Kafka está a contrariar os seus intérpretes futuros, quando escreve num fragmento “Nada disso – atravessando as palavras há restos de luz.”
João Barrento,
“Prefácio” a Kafka, Parábolas e Fragmentos
trinta e cinco movimentos cénicos inspirados em kafka
Tudo começou na Oficina que realizámos no ano passado com os alunos de Estudos Artísticos da Faculdade de Letras, à volta de Kafka, onde surgiram pistas de trabalho que nos pareceram merecedoras de aprofundamento. Ficámos com água na boca… Agora, nesta fase de um verdadeiro work in progress, seguimos e ampliámos os propósitos da Oficina, associando incursões pelos teorias interpretativas, cruzadas com observações ou desenhos do autor, excertos de cartas e de obras maiores, mas, em especial, os seus pequenos textos de ficção, as suas parábolas.
Ensaiámos tratar a teoria como ficção teatral, a ficção ou o pormenor biográfico como partes de valor igual na narrativa cénica, sem hierarquia nem fronteiras.
Na raiz do projecto dramatúrgico uma pista de leitura extraída de Walter Benjamin: “Para Kafka algo havia só captável pelo gesto. E esse gesto, inintelígivel, é o ponto obscuro e nebuloso das parábolas, o ponto de onde emana a obra de Kafka.” Uma pista inspiradora que serviu de mote à organização do projecto dramatúrgico.
Os actores são verdadeiramente co-criadores deste espectáculo, já que todo o processo de construção se baseou em improvisoss individuais e colectivos cujos resultados foram sendo cerzidos de forma a construir um guião. Eles organizam poeticamente todo esse material em ritmo de colagem (segundo Adorno, W. Benjamim queria “renunciar a qualquer forma de interpretação manifesta e deixar que as significações viessem à luz através da montagem chocante do material”), com fragmentos que se interpenetram à procura de sentido, interrogando, brincando por cima da morte.
Para continuar.
aab
in folheto de apoio ao espectáculo, Abril 2009







