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44. Bonecos e Farelos [2008]

texto “Quem tem Farelos?”, de Gil Vicente
encenação, espaço cénico e adereços António Jorge
elenco António Jorge, Eduardo Gama, Maria João Robalo, Miguel Magalhães, Ricardo Kalash e Sílvia Brito
figurinos Ana Rosa Assunção
desenho e operação de luz Danilo Pinto

estreia Oficina Municipal do Teatro, Coimbra, a 17 de Abril de 2008

Começam as obras do quarto livro, em que se contém as farsas.
Este nome da farsa seguinte, Quem tem farelos?, pôs-lho o vulgo. É o seu argumento que um escudeiro mancebo per nome Aires Rosado tangia viola e a esta causa, ainda que sua moradia era muito fraca, continuadamente era namorado. Trata-se aqui de uns amores seus per cinco figuras: Ordoño, Apariço, Aires Rosado, Isabel e ua Velha sua mãe. Foi representada na mui nobre e sempre leal cidade de Lixboa ao muito excelente e nobre rei dom Manoel primeiro deste nome, nos paços da Ribeira. Era do Senhor de 1505 anos.

Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente

Pela mão de Gil Vicente, o Teatro emergiu da Idade Média e tocou as luzes do Renascimento rumo à contemporaneidade. A sua vasta obra é hoje uma preciosa janela sobre o passado, uma oportunidade de reflectir melhor sobre quem somos e o que fazemos através da evolução da arte, da história, da sociedade.

A riqueza e a plasticidade do teatro de Vicente têm constituído um fértil campo de trabalho na afirmação de uma linguagem própria da Companhia. Gil Vicente é um desafio que assenta no jogo dos actores, exige deles uma assertividade, agilidade e subtileza no domínio das partituras (gesto, texto, som) que concorrem para esclarecer e vivificar a teatralidade e a palavra Vicentina.

“Quem tem farelos?” é talvez a primeira farsa do teatro português. Constitui uma sátira social quinhentista bem humorada, que nos dá uma ajuda no desenho dos costumes e temperamento portugueses e nos expõe temas universais como a decadência de valores, a crise social e o conflito de gerações, tão pertinentes como actuais.

Apesar de ser um texto de intriga incipiente e personagens planas (tipos sociais que evoluirão ao longo de outras peças), fruto de uma escrita ainda insegura que se alimenta da tradição medieval (popular e erudita), transborda já de uma teatralidade pungente e inovadora.

O que nos chega de “Quem tem farelos?” é pouco mais do que a fixação do texto, modesto libreto de uma “opereta” bastante elaborada. A cuidada construção sonora que se adivinha na organização das canções, palavras, sons, rendilhada pela rima, verso e ritmos, vão muito para além do suporte musical mais ou menos ilustrativo. Tem valor vocabular, é criadora de espaço, tempo e acção.

A personagem Isabel vai adquirindo progressivamente ao longo da peça uma vontade própria, uma voz. Primeiro inaudível, depois apoderando-se da palavra até ao pleno controlo discursivo, afirmação duma identidade inequívoca. Mais do que um precoce exemplo de emancipação feminina é uma metáfora da infância do teatro português e do percurso de Gil Vicente como grande dramaturgo.

Premissas de trabalho:
– Invenção de um imaginário infantil e ancestral, com o retorno simbólico ao Teatro de Boneco como espaço privilegiado da experiência teatral, passados sete anos sobre o incêndio que culminou o pequeno “Auto da Consignação” e que marcou a saída da Companhia do Pátio da Inquisição.
– Conciliar o trânsito lúdico entre universos de diferentes escalas, forçando a perspectiva: teatro de bonecos/espaço de representação, boneco/actor, som/palavra, ritmo/música.
– Desdobramento dos actores em bonecos, forçando o efeito mimético e caricatural das personagens e enriquecendo a leitura cénica das situações.
– Reconstrução de discursos não verbais e sonoros estruturadores da farsa.

António Jorge
in folheto de apoio ao espectáculo, Abril 2008