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38. Prometeu 06 [2006]

textos “Prometeu Agrilhoado”, de Ésquilo (excertos), “Prometeu”, de Franz Kafka, e “A Libertação de Prometeu”, de Heiner Müller
tradução Ésquilo Ana Paula Quintela Sottomayor
tradução Kafka versão de cena António Jorge
tradução H. Müller José Ribeiro da Fonte
encenação António Jorge
elenco António Jorge
música original António Andrade
vídeo Paulo Côrte-Real
espaço cénico António Jorge
figurinos Ana Rosa Assunção e António Jorge
luzes António Jorge e Rui Simão

estreia Oficina Municipal do Teatro, Coimbra, a 28 de Setembro de 2006

Hybris de um portador de fogo e o fedor dos dias

Tudo parte da necessidade de um desafio pessoal maior, de pôr à prova uma experiência de vida e a vivência de uma arte. E, com isso, tentar reacender um olhar mais distanciado e abrangente sobre a realidade e o momento, aguçando a lucidez nas escolhas do que é essencial.

O mergulho na matéria concreta da minha arte, o fazer teatral, reforçando o grau de exigência técnica, o exercício da disciplina e da memória do corpo, levaram-me a rever limites, não temendo o erro, num confronto, humilde mas claro, com as minhas dificuldades, resistências e ignorância.

Indispensável nesta aventura foi a participação de dois amigos que partilharam comigo o risco e o prazer da criação.

Mantenho, por outro lado, a ambição de que tudo isto possa servir, mais do que uma reflexão pessoal, para questionar o sentido da arte e a condição do artista face ao momento político e social presente, os nossos valores culturais e humanistas e as nossas expectativas como Homens. Assim como o lugar da responsabilidade individual e do livre-arbítrio perante a massificação dos gostos, o consumismo básico e desenfreado, as concessões às leis do lucro e do sucesso fácil. Fenómenos que, para além de menosprezarem a arte, tendem a dispensar a sensibilidade e inteligência do Homem, empurrando-o para uma nova Idade do Ferro.

O cruzamento dos textos de Ésquilo, Kafka e Müller, onde o gosto e rigor da palavra elaborada são igualmente pungentes, apesar do tempo que os separa, permitiu-me obter, através da exploração das suas diferenças formais e de ângulo de leitura do Mito, a matéria fundamental do jogo dramático. E, ao mesmo tempo, relevar a força e pertinência deste símbolo da insatisfação e da revolta contra a prepotência dos falsos Deuses que inventamos e que polulam na nossa sociedade, condicionando o nosso discernimento.

A dádiva da arte, da ciência e da ética foi o Fogo em que, afinal, se forjaram os pilares da civilização ocidental. Hoje, celebrar Prometeu (etimologicamente: pró-antes + manthánein-saber, ver), reinterpretando-o, é um privilégio que nos permite parar, olhar para trás e recuperar a Verdade.

O Teatro é um espaço de referência e liberdade, gerador de inquietações através da procura do Belo. Prometeu 06 é mais uma tentativa de pensar e levar outros a pensar connosco. Escolher as 3 ou 4 pedras que nos sustentam e, a partir delas, resistir e gritar, sempre e de novo, por fogo. Porque a Esperança que restou no fundo da Caixa de Pandora chegar-nos-á, senão para um dia cumprir todas as utopias, pelo menos para minorar alguns recuos e tropeções da condição humana dos nossos passos.

António Jorge
in programa do espectáculo, Setembro 2006