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36. Profundo [2005]

de José Ignacio Cabrujas
tradução e encenação Sílvia Brito
elenco António Jorge, Carlos Marques, Cleia Almeida, Maria João Robalo, Ricardo Correia e Sofia Lobo
cenografia António Jorge
figurinos Ana Rosa Assunção
adereços Ana Rosa Assunção e António Jorge
luz Rui Simão

estreia Oficina Municipal do Teatro, Coimbra, a 15 de Dezembro de 2005

O Direito ao Desespero

Jamais desesperes, mesmo perante as mais sombrias aflições da tua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda.

(Provérbio chinês)

Entre a esperança, a frustração e o desespero vai, como nos mostra Cabrujas, uma curta distância.

Habituámo-nos a ter na esperança – na fé religiosa ou na confiança nos homens e nas suas obras – o apoio e o sentido para as acções quotidianas. Ela, aliás, existe “enquanto há vida“ e, coerentemente, “é a última a morrer”.

Mas morre. Morre quando todos os esforços se revelam infrutíferos, quando já não há mais nada que possamos fazer, quando os resultados não dependem de nós. Isso frustra-nos e conduz-nos, numa terceira fase, ao desespero.

A história da religião e das civilização é a história da luta contra o desespero, proíbe-o: o desespero altera a ordem natural das coisas, agita, desestabiliza e, em última instância, “não leva a nada”.

A arte, pelo contrário, sempre soube viver com ele e reivindica o direito a senti-lo e a manifestá-lo. A arte não tem que “levar” a nada.

E, no entanto, leva. Leva a que nos expressemos, nos revejamos, nos questionemos, nos identifiquemos. Num sentido escatológico, muitas vezes, mas imprescindível no combate à resignação, à passividade e ao conformismo a que frequentemente chamamos esperança.

Em Profundo os Álamo escavam um buraco – não fazem, aliás, mais nada. No fundo do buraco estará o tesouro pelo qual vivem. Acreditam num “milagre” divino mas, paradoxalmente, esforçam-se, na terra, para que ele aconteça. Abdicam de coisas, incorporam outras, tentam até moldar as suas personalidades, reprimindo pensamentos e inclinações “naturais”.

Dir-se-á que são pragmáticos, materialistas e hipócritas.

Dir-se-á que são idealistas, crentes e esperançosos.

Na sua busca deparam-se com obstáculos, aparentemente intransponíveis. Frustram-se, desesperam e retomam a escavação. Com esperança?

O buraco é caminho para ir e sepultura onde ficar. É o fundo profundo do poço e é o fundo profundo da questão. É a esperança, a frustração e o desespero em cada pá de terra e em cada objecto que dele retiram, em cada cano de esgoto que são obrigados a atravessar. À sua maneira, os Álamo são um exemplo notável de persistência, construída num ciclo que combina, viciosa ou virtuosamente, estes três elementos.

Quando a esperança se acaba e a frustração nos sufoca, só nos resta o desespero.

Talvez resulte.

A Escola da Noite
in folheto de apoio ao espectáculo, Dezembro 2005