
de José Ignacio Cabrujas
encenação António Augusto Barros
tradução Sílvia Brito
elenco António Jorge, Fernando Mora Ramos, Isabel Lopes, Rui Damasceno, Sílvia Brito e Sofia Lobo
cenografia João Mendes Ribeiro
figurinos Ana Rosa Assunção
adereços Ana Rosa Assunção e António Jorge
música Paulo Vaz de Carvalho
clarinetista Nuno Pinto
estreia Pátio da Inquisição, Coimbra, a 15 de Novembro de 2001
Flor de Lama
É muito raro encontrar um autor que tenha também uma experiência profunda e multifacetada por dentro do fenómeno teatral, enquanto actor, encenador e membro de uma companhia.
Não é fácil para um autor incorporar de forma prática, ao longo da sua obra, as principais discussões estéticas do último século teatral — Tchekhov, Pirandello, Brecht, Beckett — e “sobreviver” a tudo isso com a reinvenção de um modo próprio, pletórico da teatralidade.
Não é frequente a conjugação de um verbo poderoso e humorado, cáustico, iconoclasta, com uma forma dramática de e para actores, com um teatro que se abre à fruição e à discussão com o público.
Para lá de todas estas conjugações inusitadas, existem autores que conseguem ainda situar o cerne do seu teatro na reflexão sobre a condição do artista, sobre a inserção de um artista num projecto colectivo, sobre as relações da arte com a sociedade, da arte com a comunidade.
José Ignacio Cabrujas é um desses raros autores nossos contemporâneos.
E, na sua obra “Acto Cultural”, temos tudo isso em elevado grau de concentração. Por isso a escolhemos para vos apresentar neste momento.
Rir é um trabalho árduo. Seria fácil acrescentar: …num mundo como o de hoje. No entanto, seria demagógico, porque nos queríamos referir apenas a nós próprios, às nossas próprias dificuldades.
Cabrujas considerava que só tinha começado verdadeiramente a escrever quando decidiu falar de si próprio. No entanto, a forma que escolheu para o fazer é profundamente social.
Como não podia deixar de ser, as palavras de Cabrujas foram filtradas por nós, com o nosso modo, o nosso jeito, as nossas inflexões, mas o público esteve sempre pelo meio. Como nunca. Às vezes fez-nos falta nos ensaios.
Agora que abrimos as portas, queremos dar-vos conta do prazer sempre renovado que é voltar a trabalhar, voltar a mergulhar obsessivamente na construção do precário, do efémero, do quase inútil. Desta vez, com esta matéria textual que nos acompanha como projecto quase desde a fundação. Desta vez, com um elenco, também ele raro, no seu precioso equilíbrio de diferenças.
E, afinal, depois de todas estas elocubrações, ele (Cabrujas, que morreu em 1995) e nós (que estamos quase a transformar-nos em vestígios arqueológicos em 2001) só esperamos que sorriam.
António Augusto Barros
P.S.: Esperamos também, aqui, n’A Escola da Noite, que tenha valido a pena atravessar os perigos desta visita à nossa trincheira, para participar neste serão cultural. Cuidado com os buracos à saída. Obrigados.
«Alguém viu por aí o Presidente da Câmara?»
in programa do espectáculo, Novembro 2001





