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04. SUSN [1993]

de Herbert Achternbusch
tradução Idalina Aguiar de Melo
encenação António Augusto Barros
elenco Carlos Gomes, Carlos Sousa,  Isabel Leitão, Lígia Roque, Sílvia Brito e Sofia Lobo
figuração  Adriano Cristino, Benjamim Pinto, Domingos Moreira, Miguel Amado e  Ricardo Silva
cenografia Fernanda Fragateiro
figurinos e adereços Fernanda Fragateiro e José Fragateiro
música António Andrade
desenho de luz José Neves
assistência de encenação José Vaz Simão
assistência de cenografia José Fragateiro
dossier do actor António Augusto Barros, José Vaz Simão e Ana Rosa Assunção

estreia Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra, a 24 de Março de 1993

Linguagem

“Susn” é também a história da linguagem, da linguagem na vida e da vida enquanto linguagem.

— a princípio, na adolescência, a linguagem é balbuciante, entrecortada, interrompida, como que a acompanhar e a definir uma forma de construção (a da personalidade de Susn);
progressivamente mais clara e amadurecida, como voz própria, até degenerar, ceder lugar ao silêncio e a outra personagem;
— o escritor, que se vinha metendo na personagem, não resiste e cede à sua vontade de interferir (fá-lo em nome próprio sob o nome do escritor que escreve a peça, Herbert Achternbusch) conquistando o papel habitual do homem que não sabe falar com, mas apenas em vez de (de Susn, obviamente, que se cala em absoluto — ou quase — no último quadro); o escritor fá-lo em nome de argumentos racionais, lógicos, repondo uma “certa verdade histórica” que Susn, com as suas histórias confusas e pouco lógicas, tinha distorcido. Defende-se como marido de Susn mas também defende o pai de Susn contra a mãe, num tom que pode ser o do escritor mas também poderia ser o do padre, o do professor ou o do advogado.

— Herbert Achternbusch, ao inventar-se como personagem, vem lembrar que a construir aquela história (diegese) – ficção e aquela correspondente verdade, está precisamente um homem, que é o escritor Achternbusch. Ao deixar a espingarda que vai servir para matar Susn, mostra claramente quem fica com a caneta.

Susn nunca chega a ser completa ou lógica, como se nunca pudesse ser proprietária da sua linguagem.

Abandona mesmo algumas histórias a meio (deixando o público, como o padre, a salivar, a meio de um frenesim confessional), como se se esquecesse das palavras ou deixasse de se interessar por elas.

No quarto quadro diz saber como se controla a linguagem (constrói), mas abdica de o fazer segundo a norma. Deixa cair as guardas, desleixa-se, por preguiça, para a falar como os outros, os de baixo. A sua vida deixa de ter um rumo também, deixa-se ir na corrente. Praguejando ainda, abandona-se ao que os outros lhe reservam.

O escritor Herbert Achternbusch assume toda a herança masculina da família, assume por completo toda a sua história, construindo uma ficção e assinando-a no próprio seio da escrita. Com a ficção que inventa, ele não pretende descomprometer-se ou distanciar-se.

in programa do espectáculo, Março 1993