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02. O Triunfo do Amor [1992]

de Marivaux
tradução António Cabrita
encenação Rogério de Carvalho
elenco Carlos Sousa, Fernando Mora Ramos, José Neves, José Vaz Simão, Lígia Roque, Sílvia Brito, Sofia Lobo
cenografia José Manuel Castanheira
figurinos Ana Rosa Assunção
música Paulo Vaz de Carvalho
desenho de luz Jorge Ribeiro
direcção de cena Otelo Lapa
sonoplastia José Balsinha
adereços Luís Mouro
grafismo Ana Rosa Assunção

estreia Teatro Avenida, Coimbra, a 22 de Outubro de 1992

Marivaux e O Triunfo do Amor
Quatro razões para um projecto de teatro em Coimbra

Estamos, com O Triunfo do Amor, em pleno séc. XVIII em França. Marivaux conhecia um sucesso controverso, como um homem de teatro pode / deve ter.
A Companhia de Actores Italianos adoptara-o e ele ensaiava a adaptação do seu ideário a uma forma que servisse os actores e o seu jogo.
Alguns maître à penser do seu tempo desprezavam-no. Nomes maiores, como Voltaire, outros menores. Quem conhece hoje Crébillon (filho), um dos críticos de Marivaux? Parece nome de cow-boy. E a sua obra Tanzai et Nardané, onde zurzia o romance A Vida de Mariana, do nosso autor? Ouviram falar de Tanzai et Nardané? Nós também não.
Estamos em pleno séc. XVIII, em França. As peças duravam entre 4 representações (fracasso) e 16 (enorme sucesso). O Triunfo do Amor conheceu 6 representações.
Foram precisos quase dois séculos para que o teatro resgatasse a obra de M. (sim, o teatro, os grandes encenadores do teatro contemporâneo como Chéreau, Vilar ou Vitez). Hoje comparam-no a Shakespeare.

1) porque escolher hoje uma peça de M. é um passo em direcção ao público, sem o tornar indigente ou analfabeto.
Em Portugal, no séc. XVIII, por altura de O Triunfo do Amor, Verney criava as condições para que fosse possível a reforma pombalina (1772), a única grande ruptura na casa-forte do saber (saber escolástico, retórico, formalista) que era a Universidade de Coimbra. Defendia-se o método experimental. Procurava-se que a anatomia humana não fosse estudada em carneiros. Apesar dos retrocessos da política da “viradeira”, a reforma deixou frutos imperecíveis. Teremos que redescobrir o Jardim Botânico, o Laboratório de Quimica, os Instrumentos de Física que a Europália desempoeirou para nos apercebermos, hoje, do alcance dessa ruptura. É curioso que o movimento recuperador da Universidade tenha tapado a fenda então aberta, de modo a que esses vestígios físicos nos apareçam ainda agora envolvidos numa certa marginalidade bizarra que os torna inconvertíveis ou relutantes à própria museologia. Bastará lembrar o desprezo a que está submetido o Botânico e o completo encerramento de grande parte da sua área…
No coração do enredo de O Triunfo do Amor a perturbação que o amor (Focion) desencadeia na razão (casa de Hermocrates) é comparável à emoção estética no processo do conhecimento.
O amor é aqui o equivalente da arte, degraus da emoção sem os quais não se completa um conhecimento humanístico.
Hoje não se estuda anatomia humana em cadáveres de carneiros na Universidade de Coimbra. Mas a Arquitectura, já reclamada pelas reformas do séc. XVIII, só agora entra, tímida, no programa de estudos da Faculdade de Ciências (!), o teatro não se ensina, nem a música, nem a pintura, nem a escultura, nem… De todas estas disciplinas não se ensina senão a parte da história. Permanece uma vocação trituradora, duma ruminância retardada, que, mesmo aí, apenas estuda os cadáveres dos criadores décadas depois destes terem partido. Victor Garcia, hoje, é um nome adquirido, mas ainda não se estudou a sua passageira experiência em Coimbra. É apenas um exemplo. A história, para já, acaba em Artaud, em Picasso, em Schönberg, em Pessoa. Três a cinco décadas é o prazo de validade para se digerirem as novas experiências.

2) porque um grupo de teatro não deve alhear-se de uma universidade sem arte.
É possível uma universidade sem arte?
Estamos às portas do séc. XXI, em Coimbra. O jardim invade a casa do filósofo Hermocrates. Cresce a relva sintética pela colunata. O Teatro, na cenografia de José Manuel Castanheira, parece reclamar a necessidade de se fazer um novo apelo à natureza para redescobrir a ciência, à ecologia do saber, aos valores da ética e da moral, à arte, para resolver a “crise da consciência europeia”. Estamos no séc. XVIII, lembram-se? A grande crise tivera “um começo indeterminado dentro do séc. XVII e um fecho também indeterminado dentro do seguinte”, como dissera um autor. A nossa é uma crise súbita e precisa no eclodir, deixando-nos a sensação de que ainda mal assistimos ao seu início.

3) porque nos perdemos frequentemente neste vendaval e deliberámos que o teatro pode ajudar-nos a inventar um sistema comparativo das crises da nossa “consciência europeia”.
Num manifesto inicial, A Escola da Noite afirmava: “a companhia não se sente investida na missão de formar públicos, mas contribuir, pela sua visão ou interesses teatrais próprios, para a diversificação do olhar e do espectro de escolha do espectador. Importante para nós será que o público possa ler o nosso percurso e, nessa base, ir estabelecendo connosco protocolos baseados no encontro possível das suas necessidades culturais com a nossa evolução”. Marivaux é um sistema completo de aprendizagem teatral. Gostaríamos de partilhar com o público essa aprendizagem de um clássico. Há enormes buracos na história mental do teatro que o público ficciona, que os actores ficcionam. Técnicas, códigos, linguagens.

4) porque somos uma companhia de teatro em formação.

A Escola da Noite
in programa do espectáculo, Outubro 1992